Dia 2/10, no Asteroid Bar, a banda VOLPINA, na qual toco guitarra e canto algumas músicas, fará seu CENTÉSIMO show. Será uma festa com a participação de Rafael Oliver e Thamila Zenthofer (ex-membros da banda Vilania). Todos, mais uma vez, estão super convidados!
Tenho um caderno aqui e estava vendo as anotações de todos os shows que fizemos desde 2004, ano que nos juntamos e resolvemos formar a banda.
Atualmente estamos em estúdio gravando nosso single que sairá em breve e será devidamente divulgado neste blog.
Dentre todos os 99 shows até agora um, em particular, é bem especial. Longe do saudosismo FRED SAVAGE, o dia em que pudemos tocar com os nossos artistas preferidos merece ser mencionado por aqui. E fiquem tranquilos, meus netos serão obrigados a ouvir essas histórias muito mais vezes do que vocês, eu garanto!
Trata-se do dia em que dividimos o palco com SONIC YOUTH, IGGY POP e NINE INCH NAILS em festival.
Eis a cobertura do evento. Os grifos não saem da cabeça. Afinal, éramos uns criançotes de 19 anos, com os quartos forrados de posters e o violão sempre no colo.
CLARO QUE É ROCK
São Paulo, dezembro de 2005.
(Texto que escrevi para uma das edições do Fanzine SOUND, publicação feita na raça por mim e um bando de malucos maravilhosos)
Aproveitando a FULMINANTE estrutura do festival CLARO QUE É ROCK, que trouxe bandas como NINE INCH NAILS, SONIC YOUTH, IGGY AND THE STOOGES e os sempre TEENAGERS GOOD CHARLOTTE, resolvi colocar aqui todas as impressões que tive do evento.
Bom, a banda VOLPINA foi escalada para tocar no festival, banda na qual toco guitarra e canto. Recebi uma credencial de ELENCO e dei uma desanimada “Vai ser igual ao show do PLACEBO, recebemos essa mesma credencial e nem tivemos contato com os caras da banda” (O VOLPINA abriu para a banda britânica PLACEBO em uma das seletivas do CLARO QUE É ROCK).
Chegamos dez horas da manhã para a passagem de SOM. Subimos no palco para darmos uma conferida na estrutura: tudo muito grande. Uma chuva muito fina, mas constante caía e deixava o palco bem molhado.
Logo em seguida, fomos deixar nossas coisas no backstage, vários trailers com sofás vermelhos e vasos de rosas combinando com os sofás. Ao sair, descobri que o camarim do SONIC YOUTH era em frente ao nosso. Nisso, lembrei que já cheguei a rasgar uma calça jeans, ao 15 anos, ao assistir a um show do SONIC no FREE JAZZ FESTIVAL, televisionado pela TV CULTURA.
Bom, passamos o som e logo depois fizemos o show. Tudo bem rápido. Nossa apresentação foi bacana para nós, tivemos uma boa resposta da organização do evento, alguns elogios da crítica e os seguranças que estavam no palco gostaram bastante.
Das bandas selecionadas para o festival, o destaque vai para a brasiliense 10ZERO4, que já na passagem de som impressionou muito, e para os soteropolitanos RONEI JORGE E OS LADRÕES DE BICICLETA. Quando o RONEI JORGE, primeira banda do evento, terminou seu show, os jurados ainda não haviam chegado, devido a um suposto contratempo no trânsito. A produção, então, queria coloca-los para tocar novamente antes do GOOD CHARLOTTE, assim, poderiam ser devidamente avaliados. Os baianos foram irredutíveis e disseram: “Não viemos aqui tocar para uma banca de jurados. Já fizemos o nosso show”. Além de ter culhões para tal atitude, a banda possui músicas bem legais também.
O local começou a entupir de adolescentes uniformizados com cera no cabelo, piercing para todos os lados, lápis nos olhos, etc. É dado o sinal: GOOD CHARLOTTE sobe ao palco.
Hits atrás de hits é a definição para o show dos irmãos gêmeos. A molecada esperneou bastante, mas não fiquei até o fim, corri para o outro show: NAÇÃO ZUMBI.
Subi no palco e lá estavam toda a produção e os caras da banda fazendo um breve aquecimento. Nesse momento, chegou um produtor e me disse: “Você tem relógio aí? Preciso de alguém para cronometrar o show deles. Pode ser? Eles tem que tocar 50 minutos”. Aceitei o trabalho e pensei: “Porra! Se eu não avisar, a NAÇÃO pode tocar um pouco mais”. Bem, a apresentação foi impecável e o guitarrista LÚCIO MAIA deu um show à parte.
Avisei o produtor que faltava pouco para os 50 minutos e fui jantar. Antes dei uma conferida no show do FANTOMAS, banda de MIKE PATTON, ex-FAITH NO MORE. A banda é ULTRA alternativa, barulheira do começo ao fim. Aliás, preciso pegar alguma gravação para poder entender a coisa toda.
IGGY no jantar.
Enquanto MIKE PATTON dava seu show, estávamos no stage de alimentação: comida da boa e à vontade. O stage ficava logo atrás do palco A, onde rolava o show do FANTOMAS.
Estávamos sentados à mesa comendo, eu e o PIJAMA (Rafael Louzada, baixista do VOLPINA). De repente, ele me cutuca e diz atônito: “Cara, olha o IGGY POP ali!”.
IGGY POP passou para ir ao seu camarim. Largamos a comida e fomos segui-lo junto à uma porção de gente: SUPLA, os caras do CACHORRO GRANDE e a turma da PITTY. Todos seguindo IGGY!
Entramos numa casa cheia de salas onde ficavam os outros camarins. IGGY POP entrou no seu e só deixou para fora dois seguranças MUITO grandes e o seu empresário MUITO bravo.
Fui andando pela casa e encontrei uma porta aberta, resolvi entrar sem falar nada. Na sala, havia uma mesa cheia de comida importada e 5 caras de preto, suados, sentados num sofá. Era o camarim do GOOD CHARLOTTE. Cumprimentei todo mundo com o velho e sempre funcional “ YOU GUYS ARE GREAT!”, abracei uns potes de batata fechados e sai dizendo: “ SEE YOU GUYS”.
Nisso, encontro o FELIPE e o ALÊ (vocalista e baterista do VOLPINA, respectivamente), ficamos na porta da casa dando algumas risadas. Logo em seguida, os caras do GOOD CHARLOTTE saíram do camarim para ir ao hotel. Entramos lá novamente e fiquei abismado: havia um sofá inteiro de cartas dos fãs que a banda havia deixado lá. Peguei a carta mais expressiva: um rolo com uns 10 metros de textos coloridos, tudo em inglês. Guardei-a comigo na intenção de entrar em contato com a remetente. No entanto, achei bobagem, além do mais, a garotinha iria ficar muito triste ao saber que seus escritos estavam comigo e não com um dos GOOD CHARLOTTE.
O show do FANTOMAS já tinha acabado e MIKE PATTON já podia ser visto circulando pelo backstage junto com IGOR CAVALERA, baterista do SEPULTURA.
O guitarrista do FANTOMAS, BUZZ OSBORNE, líder do MELVINS pedia licença para todos e trocou umas palavras com o FELIPE (VOLPINA). O MELVINS foi uma importante banda da cena de Seatle no final dos anos oitenta e está na ativa até hoje. A banda teve como roudie KURT COBAIN e foi uma forte influência na formação do NIRVANA.
Enquanto isso, já rolava FLAMING LIPS. Cheguei meio tarde, mas a tempo de ver o vocalista WAYNE CONEY entrar numa bola transparente imensa e rolar pelo público.
Fui voando para o outro palco novamente, para assistir ao show do IGGY POP AND THE STOOGES. Consegui ficar ali somente nas três primeiras músicas, depois disso os seguranças da banda tiraram TODOS de cima do palco. O baterista da PITTY argumentava com o chefe da segurança: “Não faz isso com o velhinho, ele não vai gostar! Ele quer ver todo mundo no palco, perto dele!”. O velhinho era IGGY POP e a argumentação toda não convenceu o segurança.
O show do IGGY POP com os STOOGES foi estarrecedor. IGGY mergulhou na galera umas duas vezes. Rebolou. Fez de tudo. Já no final de seu show, saí e fui para o palco onde ia rolar SONIC YOUTH.
Cheguei no backstage e fui logo para as escadarias de acesso ao palco. Ao entrar, um segurança me disse: “Ixi, agora ninguém mais pode ficar aqui!”. Então, resolvi ficar ali mesmo, conversando com o segurança. Falamos de tudo: sobre seu casamento, sobre sua sogra que o atormentava e não o deixava escutar PINK FLOYD e sobre sua paixão por LEGIÃO URBANA. O cara me disse: “meu sonho mesmo era ver um show da LEGIÃO!”. Sem titubear, aproveitei o momento e emendei: “Cara, meu sonho é ver o SONIC YOUTH, essa banda que vai tocar daqui a pouco e VOCÊ é o cara que pode realizá-lo! Hahaha! Aliás, toquei aqui hoje. Olha, aqui está um cd da minha banda para você”. Apesar de suborno ser uma palavra bem forte, subornei o segurança com um discurso emotivo e uma demo do VOLPINA. Aí ele me disse: “Ah, VOLPINA! Nossa! Eu estava no palco quando vocês tocaram. Pô! Vocês agitam bastante! Então, vamos fazer o seguinte: vou deixar você ficar no palco, pode subir lá, mas fique sentado para que ninguém o veja, qualquer coisa eu estou aqui, é só me chamar”. Perfeito. Assisti ao show do SONIC YOUTH sentado ao lado do amplificador de THURTON MORE, guitarrista e vocalista da banda. Um lance inesquecível. Um show maravilhoso. Com direito a DRUNKEN BUTTLERFLY e TEENAGE RIOT, duas músicas perfeitas do grupo.
Antes do SONIC YOUTH subir ao palco, os rodies e o técnico de som da banda estavam fazendo os últimos acertos, enquanto IGGY POP ainda rolava no outro palco. IGGY POP começou a esbravejar no microfone milhares de “FUCKS”. Nisso o técnico de som falou para o baterista do SONIC YOUTH que estava por lá assistindo ao show dos STOOGES:
“Esse cara diz as mesmas besteiras há trinta anos!”. O baterista riu e completou: “É por isso que eu gosto dele”.
Depois do show do SONIC YOUTH, veio NINE INCH NAILS. Um show muito intenso visualmente e muito mais alto que os outros. Nesse momento, já estávamos indo para a van, todos muito quietos, relembrando tudo que havia acontecido no festival.
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YEAH!
Vejo vocês no show!
Forte abraço,
@jairosanches